Durante anos, a explicação para os problemas do Brasil cabia em duas palavras: herança maldita.
Era uma fórmula simples e eficiente. O governo assumia, encontrava dificuldades e apontava para o antecessor. Funcionava bem. Afinal, sempre é mais confortável administrar a versão dos fatos do que os próprios fatos.
A teoria tinha prazo de validade, mas ninguém parecia muito preocupado com isso.
Até surgir um detalhe inconveniente: e quando o governo é reeleito? Ou quando retorna ao poder depois de já ter governado por tantos anos?
Nesse caso, culpar o passado começa a produzir situações constrangedoras. Em algum momento, o governo percebe que o principal responsável pela herança recebida pode ser o mesmo sujeito que agora reclama dela.
O espelho, infelizmente, identifica e não aceita réplica.
Foi então que a culpa precisou se modernizar e buscar novos mercados.
Se a economia não reage, a explicação pode estar em Washington.
Se os preços sobem, talvez seja uma guerra do outro lado do planeta.
Se os indicadores decepcionam, certamente existe alguma turbulência internacional disponível para assumir a responsabilidade.
É claro que fatores externos influenciam qualquer país. O curioso é que eles costumam ganhar protagonismo exatamente quando as explicações domésticas começam a faltar.
No Brasil, a culpa é uma espécie de viajante profissional.
Primeiro foi o governo anterior.
Depois, o Congresso.
Depois, os deputados e senadores.
Depois, o mercado.
Depois, o Banco Central.
Depois, os Estados Unidos.
Depois, alguma crise internacional.
E, quando nada disso basta, sempre existe algum fator externo convenientemente disponível para assumir a responsabilidade.
A lista permanece em permanente atualização.
Porque, na política brasileira, encontrar culpados costuma ser bem mais rápido do que encontrar soluções.
Resolver problemas exige diagnóstico, planejamento e resultados.
Transferir responsabilidades exige apenas um pouco de criatividade e cinismo.
O único lugar onde a culpa raramente consegue chegar é ao gabinete de quem governa.
E assim seguimos, aguardando a próxima justificativa oficial.
Afinal, se existe algo realmente inesgotável na política brasileira, não são os problemas.
São os culpados.