No Brasil, especialmente aqui no Nordeste, a pobreza sempre foi tratada como se fosse um patrimônio político. Não um problema a ser resolvido, mas um troféu para ser exibido. Por isso não surpreende quando um governador diz que o “maior erro” de seu aliado foi “cuidar o tempo todo dos pobres”. A frase vem embrulhada como autocrítica, mas o cheiro é de outra coisa: a tentativa de transformar a pobreza em desculpa, em álibi, em identidade política permanente.
E aí entra a ladainha do “não tive berço de ouro”, como se diploma, estudo e oportunidade fossem crimes contra o povo. A ironia é que, enquanto se romantiza a própria origem humilde, o mesmo discurso tenta convencer que quem estudou demais não pode governar. Como se a competência fosse inimiga da periferia. Como se o pobre tivesse que permanecer pobre para manter viva a narrativa de quem diz governar “para o povo”.
Enquanto isso, nas matérias que circularam, o debate ético vai descendo a ladeira. Tem político reclamando da Polícia Federal porque a foto do dinheiro apreendido ficou feia. Tem justificativa dizendo que pegar carona em jatinho é só “amizade”. Tem quem ache normal receber ingressos de empresários investigados, como se fosse cortesia de São João. E tem quem diga que tudo isso é “retórica hipócrita”, mas continue tentando normalizar o anormal.
O problema não é ser pobre. O problema é usar o pobre como escudo.
É transformar a pobreza em argumento moral, enquanto se tenta desviar o foco de suspeitas que precisam ser esclarecidas. É fingir que ética é opcional, desde que o discurso seja popular. É achar que o povo não percebe quando a conversa começa a cheirar a coisa errada.
Só que o Nordeste percebe. Sempre percebeu. Aqui, ninguém precisa de berço de ouro para saber quando estão tentando vender cabrito sem ter cabra. E como já dizia o Barão de Itararé, citado nas matérias: “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lugar lhe vem.”
E o povo sabe exatamente de onde vem.