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O fetiche de Lula com o pobre

Opinião do Estadão

Preso ao passado sindical e ao envelhecido repertório da luta de classes, Lula ignora a complexidade social do País, desconsidera as classes médias e cristaliza a pobreza que tenta combater.

Há no imaginário político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma figura central que organiza o discurso, orienta a ação e condiciona a própria visão de país: o pobre. Longe de ser apenas uma prioridade social legítima e necessária, como deve ser para qualquer governo responsável, trata-se de um eixo quase exclusivo – um fetiche político forjado na tradição sindical e no já empoeirado repertório da luta de classes que molda o pensamento lulopetista. Ao longo de décadas, esse enfoque tornou-se não apenas uma marca identitária, mas também uma limitação analítica e estratégica.

O primeiro problema desse enquadramento é sua incapacidade de enxergar o Brasil em sua complexidade. Ao reduzir o País a uma dicotomia simplista entre pobres e ricos, o lulopetismo negligencia segmentos decisivos da sociedade, em especial as classes médias. Esse é justamente o grupo que sustenta boa parte da arrecadação, do dinamismo econômico e da estabilidade institucional, mas que permanece praticamente à margem das preocupações de seu governo e, o mais grave, é frequentemente ignorado no rol de atenções retóricas e práticas das gestões do PT.

O fato de Lula e seus companheiros, que ocuparam o poder em 17 anos dos últimos 23 anos, não adotarem lentes mais amplas para enxergar o País constitui um equívoco político que cobra seu preço em forma de desalinhamento e frustração. Essa limitação ajuda a explicar parte das dificuldades do presidente em arregimentar apoio popular mais amplo à sua, digamos, obra política neste mandato.

Mas o problema vai além de uma divisão que deixaria apenas as classes médias à margem. Essa visão também é desabonada pela própria desconfiança daqueles que recebem a atenção preferencial do governo. Esse é o segundo aspecto, mais sutil e igualmente problemático: a concepção de pobreza implícita nesse discurso. Ao tratar o pobre como sujeito passivo de políticas públicas – alguém a ser protegido, assistido e permanentemente identificado por sua condição –, o governo desconsidera uma dimensão elementar da experiência humana: ninguém deseja ser pobre. O pobre brasileiro não quer ser definido por sua carência nem reduzido a estatísticas ou categorias administrativas. Quer ascender, prosperar, melhorar de vida. Enquanto isso, o lulopetismo cristaliza uma condição que, por definição, deveria ser transitória.

Há ainda um terceiro ponto, que expõe a defasagem desse modelo. O Brasil mudou – e, em parte, mudou também graças a políticas públicas que contribuíram para a redução da pobreza ao longo dos anos, mérito que não se pode negar a Lula. O País deixou o Mapa da Fome da FAO, a agência da ONU dedicada ao combate à fome. Houve avanços na renda e uma mobilidade social que, ainda que irregular, ampliou o contingente de brasileiros inseridos em padrões de consumo e aspirações típicos das classes médias. Dados recentes indicam que, em um ano, 8,6 milhões deixaram a linha da pobreza, e outros 1,9 milhão saíram da condição da pobreza extrema. Ainda assim, persistem desafios expressivos. Afinal, cerca de 23% da população ainda vive com até R$ 694 por mês, a linha de pobreza definida pelo Banco Mundial.

Esses números revelam uma realidade ambivalente: houve progresso, mas o problema está longe de ser resolvido. O erro do lulopetismo está em interpretar esse quadro como justificativa para insistir no seu pensamento rupestre, e não como um convite à atualização de suas premissas. Ao fazê-lo, ignora que parte significativa da população já não se reconhece nessa categoria. E, o mais importante, não deseja ser reconhecida por ela.

O Brasil de hoje é mais urbano, mais conectado, mais heterogêneo e mais aspiracional do que aquele que deu origem ao imaginário político de Lula. A insistência em um vocabulário e em práticas ancoradas no passado revela, mais do que apego ideológico, uma dificuldade crônica de compreender as transformações sociais em curso.

Assim, Lula não só limita o alcance de seu governo como perde a oportunidade de liderar um projeto nacional mais amplo, que incorpore as múltiplas camadas da sociedade brasileira. O resultado é um país que se move, ainda que lentamente, enquanto um de seus principais líderes políticos permanece preso a uma visão que já não dá conta de explicá-lo – tampouco de conduzi-lo.

Matéria publicada no Jornal  o Estado de São Paulo em 20/04/2026

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LIVROS

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A história contada neste livro teve início em meados da década de 1940, na antiga Vila do Cumbe – hoje município de Euclides da Cunha – a partir da união entre Glicério Lívio de Abreu e Hilda Campos Silva, carinhosamente chamada por todos de Tidinha.

Seguindo em frente

“Seguindo em frente” conta uma história real de um casal oriundo do sertão agreste baiano, tendo como principal personagem Tidinha, uma mulher destemida e carismática que, por meio da sua união com Glicério, formou uma numerosa família de nove filhos.

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A No título do livro utiliza-se a palavra “lutas” para fazer menção às diversas lutas travadas por Toinho, não apenas aquelas que exigiram punhos cerrados e valentia, mas também as que testaram sua determinação, seus conflitos internos, sua compaixão e sua fé na humanidade, já que, embora ele sempre tenha sido apontado como uma pessoa de temperamento forte e “brigão”, ele foi de fato uma pessoa justa, protetora, carinhosa e prestativa, que sempre buscou ajudar todos ao seu redor. E foi assim que Toinho conquistou o respeito e a admiração de todos.