Os antigos coronéis dos engenhos de cana não governavam apenas pela autoridade. Governavam pelo controle das porteiras. Nada entrava, nada saía sem sua anuência. Mudaram os tempos, mas a política brasileira continua produzindo versões atualizadas dessa tradição.
A articulação para reconduzir Davi Alcolumbre à presidência do Senado em 2027 é apresentada como um movimento natural da governabilidade. Pode ser. Mas é impossível ignorar a crescente percepção de que sua principal credencial não está na condução da Casa, e sim na capacidade de manter trancados os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
O problema não é proteger ministros inocentes. É impedir previamente qualquer exame das acusações. A Constituição conferiu ao Senado a competência de julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade. Não concedeu ao presidente da Casa o poder de decretar, por antecipação, a irrelevância de todos os pedidos.
Numa República, autoridades sob suspeita devem ser investigadas, não blindadas. Quando reuniões reservadas, alianças políticas e interesses convergentes passam a cercar temas que exigem transparência, a desconfiança deixa de ser um capricho da oposição e passa a ser uma exigência da cidadania.
O Senado não foi criado para ser uma muralha protetora de autoridades influentes. Foi concebido como um mecanismo de equilíbrio institucional. Se sua presidência for usada para impedir que denúncias sequer sejam analisadas, o país estará assistindo à volta de uma velha figura brasileira: o coronel que controla a porteira e decide quem pode ou não prestar contas.
Os engenhos desapareceram. A tentação de concentrar poder, não. E é por isso que a recondução de Alcolumbre merece mais cautela do que aplausos. Afinal, a República precisa de instituições independentes, não de senhores de engenho vestidos de estadistas.