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O BRASIL PRECISA REAPRENDER A DISCORDAR

Opinião do Estadão

Por Notas & Informações

01/11/2026 | 03h02

Está na hora de parar de tratar adversários políticos como inimigos. O poder só é legítimo a partir de um consenso mínimo. As diferenças existem, mas não podem ser intransponíveis

Há mais de uma década, o Brasil atravessa eleições como quem mergulha em trincheiras. A cada campanha, renova-se a esperança de que, encerrada a disputa, o País possa reduzir a temperatura e reconstruir algum espaço comum. Acontece o contrário, e brasas se espalham onde já há muito fogo. A eleição termina, mas a campanha continua. Adversários são tratados como inimigos e milhões de brasileiros são convidados a escolher entre dois lados que se consideram incompatíveis. O novo governo Lula terá de romper esse ciclo. Ou, no mínimo, começar a desobstruir os canais da convivência democrática, porque o poder só se legitima se for exercido a partir de um consenso coletivo mínimo.

Pode soar fantasia ou ingenuidade falar em conciliação depois de mais uma campanha rude e divisiva. Não é. Conciliação não significa eliminar diferenças nem produzir um centrismo artificial. Democracias existem justamente porque sociedades discordam. Direita e esquerda devem disputar projetos, interesses precisam ser confrontados, e governos, submetidos à crítica. O que uma democracia não suporta indefinidamente é transformar o adversário em alguém cuja própria presença na vida pública seja considerada ilegítima.

O Brasil já desperdiçou oportunidades de iniciar essa distensão. Jair Bolsonaro poderia ter compreendido, ao chegar à Presidência, que governar exigia falar também aos brasileiros que não o haviam escolhido. Preferiu manter a mobilização eleitoral e o antagonismo com o PT e seus eleitores. Lula encontrou, em 2023, oportunidade ainda maior. Voltou ao poder depois de uma eleição traumática e escolheu para o governo o lema “União e Reconstrução”. A fórmula reconhecia a necessidade do momento, mas a união permaneceu mais como intenção declarada do que como método de convivência política.

Seria errado concluir, porém, que o País esteja condenado a essa guerra. No ano passado, pesquisa da organização More in Common, realizada em parceria com a Quaest, ouviu mais de 10 mil brasileiros e encontrou algo que o barulho das redes costuma esconder: 54% da população pertence aos grupos classificados como “invisíveis”, chamados de “desengajados e cautelosos”. São brasileiros pouco alinhados automaticamente aos polos e preocupados com questões concretas, como trabalho, serviços públicos e segurança. Seu baixo envolvimento no debate não equivale a ausência de opiniões.

O dado importa menos pelo tamanho exato dos grupos do que pelo que revela: o Brasil real é mais complexo do que a guerra de identidades sugere. Há milhões de pessoas que combinam opiniões consideradas de direita e de esquerda, mudam de posição conforme o tema e não transformam cada discordância numa batalha tribal. Falam menos alto e, por essa razão, parecem menores do que são. A estridência dos polos produz a ilusão de que representam o País inteiro.

Romper essa dinâmica exigirá mais que palavras de ordem. A maior responsabilidade caberá a Lula, a responsabilidade assimétrica de quem ocupa o poder e lidera o País. Fernando Henrique Cardoso observou certa vez que é a conduta presidencial que imprime a marca de um governo. Ou seja, um presidente dispõe da tribuna mais poderosa da República e ajuda a definir, por palavras e gestos, o tom da convivência pública. Governar para todos significa reconhecer que os eleitores do adversário continuam sendo cidadãos com os mesmos direitos, abrir canais permanentes de diálogo com quem pensa diferente e compreender que nenhuma divergência precisa terminar numa guerra de extermínio político.

Ao derrotado cabe responsabilidade distinta, mas igualmente elementar: aceitar o resultado. Democracia não é um sistema no qual só são legítimas as eleições em que um determinado candidato sai vitorioso. Quem perde deve reconhecer a vontade das urnas, fiscalizar o governo, combatê-lo quando julgar necessário e preparar-se para a eleição seguinte. Oposição vigorosa é parte da democracia; contestar a legitimidade do vencedor é outra coisa.

Nenhuma eleição apagará as cicatrizes acumuladas. O que pode mudar é a direção. O Brasil que queremos não precisa ser um país reconciliado porque todos passaram a concordar, mas um país em que a divergência deixe de ser sinônimo de inimizade, em que vencer não autorize humilhar e perder não autorize incendiar. Depois de tantos anos aprendendo a se dividir, o País precisa reaprender a discordar.

Publicado no Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO

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LIVROS

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A história contada neste livro teve início em meados da década de 1940, na antiga Vila do Cumbe – hoje município de Euclides da Cunha – a partir da união entre Glicério Lívio de Abreu e Hilda Campos Silva, carinhosamente chamada por todos de Tidinha.

Seguindo em frente

“Seguindo em frente” conta uma história real de um casal oriundo do sertão agreste baiano, tendo como principal personagem Tidinha, uma mulher destemida e carismática que, por meio da sua união com Glicério, formou uma numerosa família de nove filhos.

Testagrossa: Uma história de lutas

A No título do livro utiliza-se a palavra “lutas” para fazer menção às diversas lutas travadas por Toinho, não apenas aquelas que exigiram punhos cerrados e valentia, mas também as que testaram sua determinação, seus conflitos internos, sua compaixão e sua fé na humanidade, já que, embora ele sempre tenha sido apontado como uma pessoa de temperamento forte e “brigão”, ele foi de fato uma pessoa justa, protetora, carinhosa e prestativa, que sempre buscou ajudar todos ao seu redor. E foi assim que Toinho conquistou o respeito e a admiração de todos.