Enquanto o país enfrenta inflação, juros elevados, crescimento fraco e contas públicas deterioradas, Brasília parece preocupada com outra agenda: a do poder.
As articulações em torno de um possível acordo envolvendo impeachment de ministros do STF, anistia a Jair Bolsonaro e a disputa pela presidência do Senado revelam um vício antigo da política brasileira: transformar instituições em moedas de troca. O que deveria ser matéria constitucional e jurídica passa a ser tratado como ativo de negociação.
O discurso é de pacificação. A prática sugere conveniência. Não há pacificação quando princípios republicanos são subordinados a interesses eleitorais. Há apenas um arranjo entre grupos políticos para ampliar espaços de poder.
A contradição é gritante. Enquanto técnicos do próprio Senado alertam para a necessidade de ajuste fiscal e para os riscos econômicos à frente, a elite política dedica suas energias a acordos de sobrevivência e reeleição. O Brasil real debate emprego, renda e custo de vida. Brasília debate quem ficará com as chaves do poder.
O mais grave não é a negociação em si. Democracias negociam. O problema é quando a lei, as instituições e até a ideia de justiça passam a integrar o cardápio das barganhas políticas. Nesse ambiente, a sociedade conclui que existem duas regras: uma para o cidadão comum e outra para os poderosos.
Quando anistias, cargos e interesses corporativos ocupam o centro da agenda nacional, a República deixa de servir ao povo e passa a servir a si mesma. E toda vez que isso acontece, a democracia perde um pouco de sua credibilidade.
O Brasil precisa de estadistas. O que continua produzindo são especialistas em negociar poder.